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Uma organização da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, alargada a uma vasta Comissão Promotora.
Uma iniciativa de âmbito internacional.

 

Retire o Cartaz de promoção do Congresso Feminista 2008 para o seu computador e divulgue.

1º Cartaz (Agostinho Santos): Versão de Impressão.

2º Cartaz (Graça Morais): Versão de Impressão.

 

Feministas

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Este Congresso pretende constituir-se como um acontecimento de carácter científico e interventivo, englobando as/os principais investigadoras e investigadores do campo dos estudos sobre as mulheres, dos estudos de género e dos estudos feministas em Portugal, bem como das e dos activistas que, no terreno, se envolvem na luta pela transformação de uma sociedade hierarquizada e desigual, muitas vezes, colonizadora e predadora do mundo social e natural, contribuindo para a construção de uma comunidade de activistas e cientistas que defendem um mundo mais igualitário, onde o respeito pelos direitos humanos e pela riqueza cultural sejam metas a atingir na corrida contra a violência.
 
Lançamento das Actas do Congresso Feminista Imprimir e-mail
Escrito por Ana Cristina Santos   
29 Junho 2009, Biblioteca Orlando Ribeiro, Lisboa

A ideia de promover um encontro sobre feminismos em Portugal, cruzando experiências e conhecimentos acumulados nos últimos anos, não foi particularmente surpreendente nem original. Com efeito, há já algum tempo que activistas, docentes, estudantes e investigadoras/es têm vindo a encontrar espaços de partilha e reflexão, física ou virtual, sobre questões de género em geral e feminismo em particular. Recordo-me, por exemplo, do seminário da UMAR sobre “Feminismos no Nosso Tempo”, que decorreu no Porto em 2003, do colóquio comemorativo dos 80 anos após o I Congresso Feminista e da Educação (Lisboa, 2004) e das tertúlias e formações dinamizadas pela associação não de prives, em Coimbra, desde 2002.

Ora, não sendo, como disse, particularmente surpreendente nem original no repto lançado, que nos trouxe, afinal, de único o Congresso Feminista 2008? Identifico seis grandes factores que dão conta da importância deste evento, que hoje, um ano depois, nos agrega de novo a pretexto do lançamento das Actas do Congresso Feminista, a decorrer neste espaço.

Factor 1 – Movimento
O Congresso Feminista 2008 representou dinamismo e vitalidade, activou consciências e pôs-nos em movimento, enquanto pessoas envolvidas na militância feminista, mas também enquanto sociedade portuguesa. À boleia do Congresso, a temática feminista circulou de forma muito visível nos media, com repercussões na forma como os feminismos são hoje percepcionados, e auto-percepcionados, em Portugal. Por outras palavras, o Congresso significou não só visibilidade, mas também legitimidade para a causa feminista que conquistou assim espaço e voz em diversas arenas de intervenção pública e privada.

Factor 2 – Utilidade
Ao proporcionar um espaço organizado de debate sobre temas feministas, o Congresso conseguiu reunir correntes teóricas e analíticas variadas, dando conta do imenso capital humano e simbólico contido no conceito ‘feminismo’ em pleno século XXI. O Congresso serviu ainda de palco para realçar o que o feminismo traz de único e útil à sociedade portuguesa contemporânea. Seremos nós feministas mais por convicção, do que por defeito ou hábito? Haverá espaço para a expressão de novos e velhos feminismos, novas e velhas formas de estratégia e visão feminista? Teremos nós a destreza intelectual e pessoal para gerir desconfianças, tensões, frustrações, e fazer das críticas um instrumento de aprendizagem e crescimento interno? Todas as iniciativas após o Congresso Feminista 2008 dizem que sim a estas perguntas, o que nos leva ao próximo factor.

Factor 3 – Ligação
Do congresso resultaram ideias, reflexões, articulações que, por sua vez, actuaram enquanto agentes multiplicadores de saberes, redes e iniciativas. Com efeito, o Congresso Feminista não ficou por ali, por Lisboa, por Junho de 2008. E as agendas activistas e académicas dos últimos meses atestam bem da diversidade de eventos de cariz feminista em tempos recentes, incluindo publicações, colóquios de Norte a Sul, teses de doutoramento defendidas e em curso, manifestações, blogs. O Congresso proporcionou assim um contexto para a articulação de esforços e agendas, ligando a acção colectiva feminista a outras causas de justiça social. A este respeito, foi particularmente notável a interligação entre a agenda feminista portuguesa e a agenda do movimento lésbico, gay, bissexual a transgénero, exponencialmente maximizada ao longo do último ano. A articulação entre diferentes temas ou movimentos sociais conduz-me ao próximo factor.

Factor 4 – Hermenêutica

Podemos definir hermenêutica como a arte de explicar, traduzir ou interpretar. Tal esforço de inteligibilidade entre causas foi visível durante o Congresso Feminista 2008, que proporcionou a cerca de 500 participantes a oportunidade de pensar de forma transversal temas de cidadania política, económica, social, religiosa, étnica, íntima e sexual através de uma lente de género. Mas o potencial hermenêutico do Congresso Feminista 2008 foi além de um impacto meramente académico, conquistando de forma mais ou menos subtil a esfera da cultura popular e das interacções sociais. Ao constituir-se enquanto espaço de participação democrática com uma mensagem simples e directa, o Congresso apostou ainda na tradução do dia-a-dia em termos desde sempre tratados pelos Estudos de Género, mobilizando-nos a ser feministas da nossa circunstância. Nessa medida, assistiu-se a uma recuperação de conceitos como ‘patriarcado’ e ‘sexismo’, bem como a uma ênfase nas questões de paridade, reconhecimento e equidade.


Factor 5 – Equidade

O tema da equidade foi particularmente importante na fase de preparação do Congresso Feminista, fazendo parte da imagem pública veiculada através dos media. Este foi, afinal, um evento cuja mensagem central passou pela necessidade de reconhecer que mulheres e homens são ainda tratados de forma desigual e excludente, sendo portanto necessário não apenas reconhecê-lo como implementar medidas que o combatam. Tal vocação de equidade passou também pelo desejo de tratar temas nem sempre presentes em iniciativas de cariz feminista até então. Com efeito, foi este Congresso que trouxe ao feminismo português o ensejo de reflectir colectivamente em torno do papel de quem se auto-identifica como homem, ou como trabalhadora ou trabalhador sexual, para citar apenas dois exemplos. E assim chegamos ao último grande factor.

Factor 6 – Revolução
Muitas de nós nos revemos na frase da feminista e anarquista lituana Emma Goldman (27 Junho 1869 – 14 Maio 1940), cuja tradução nos diz “se não posso dançar, então não é a minha revolução”. O Congresso Feminista 2008 representou um momento de celebração da insurreição de muitas outras mulheres e homens que lutaram antes de nós, de uma herança simbólica e factual que nos capacita, dos valores e ideais que nos mobilizam. Foi portanto, em grande medida, um congresso, uma festa e uma revolução em simultâneo.

Nem que seja por mero exercício de subversão, talvez nos seja útil propor desta vez o universal feminino, assumindo assim que todas e todos nós, feministas, beneficiamos dessa proximidade identitária com a categoria ‘Mulher’ – sim, ‘Mulher’, com M maiúsculo... E, de facto, os seis factores identificados – Movimento, Utilidade, Ligação, Hermenêutica, Equidade e Revolução – formam a palavra MULHER, aqui entendida como categoria política e nunca, necessariamente, biológica.

Movimento
Utilidade
Ligação
Hermenêutica
Equidade
Revolução

São os factores identificados sob o acrónimo MULHER que resumem o que de surpreendente e original nos trouxe este Congresso.

Reconhecemos, seguramente, tudo o que ainda está por fazer, em particular na esfera da cidadania íntima e sexual, na qual os feminismos portugueses têm sido historicamente monotemáticos, tímidos ou omissos. Reconhecemos, agora, a ausência de novas gerações feministas e de outros mundos feministas – nomeadamente anarco-feministas, grupos de acção directa, feminismo queer radical, feminismo transgénero, etc. –, cujo envolvimento importa assegurar no futuro. Mas o que importa, igualmente, reconhecer é que o Congresso Feminista 2008 trouxe consigo potencial e promessa. Cabe-nos a responsabilidade, e o desejo incontido, de converter tal potencial em actualidade, e tal promessa em oportunidade.

Porque sabemos que o feminismo nos liberta como pessoas que se querem mais inteiras do que espartilhadas, sabemos que esta é uma tarefa para hoje, para já, com a urgência mais imediata. Mas sabemos que este é também um projecto de futuro, de antecipação e fé. Afinal, é essa fé feminista que nos tem trazido, orgulhosas e bravas, até aqui.
 
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