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« HÁ QUE GERIR OS PODERES DA MEMÓRIA » Maria Gabriela Llansol, in Amigo e Amiga, Curso de Silêncio 2004 Faleceu Maria Gabriela Llansol, escritora e poeta que a academia e a literatura não conseguiram categorizar por ter trilhado um caminho original, à margem e fora dos cânones definitórios e disciplinadores que ela sempre recusou. Completamente dedicada à escrita, à qual alguém chamou de « escrita laboratorial », deu também grande importância à leitura, tendo mostrado um grande prazer pela leitura em voz alta (o que costumava fazer no GELL – Grupo de Estudos Llansolianos e cuja voz podemos ouvir no www.espacollansol.blogspot.com ). Escreveu : Ler é permitir que um chamamento nos afecte, e o nosso corpo se transforme num corpo de afectos Isto é entrar no real. Aquilo a que chamamos literatura é apenas uma tentativa de abrirmos aos outros o caminho que nos conduz a este real. Escrever é entrar na afirmação da solidão onde ameaça a fascinação. É libertar-se ao risco da ausência do tempo, onde reina o eterno recomeçar. A relação entre o texto e o corpo, e destes com o tempo e a imagem são absolutamente inovadores no trabalho de Llansol que nos diz: “Exercitaremos os pés por entre as imagens e as mãos sobre a escrita.” (in O Senhor de Herbais, p. 37) e ainda que “Passar da explicação ao corpo, é urgente” (in Cantores da Leitura). Com uma obra extensa, entre as quais não podemos deixar de nomear O Livro das Comunidades pela sua inovação em termos literários, e Na Casa de Julho e Agosto pela originalidade da sua narrativa sem narrativa, das personagens que o não são, dos retratos metamoroseados de mulheres que desintegra, que desfaz o equilíbrio a que o texto narrativo nos tem secularmente habituado. Escrever e ler em voz alta eram, em si mesmas, dimensões da experiência corporal, prazerosa, experiência de troca, libidinal e mental, afectiva também, de amplificação do mundo. Mesmo que as distinções públicas e canónicas não sejam critério, de um ponto de vista feminista, vale a pena lembrar que Maria Gabriela Llansol obteve diversas distinções, entre as quais se contam, por duas vezes, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1990 ("Um beijo dado mais tarde") e em 2006 ("Amigo e Amiga"). Por tudo isto, a UMAR não deixa de lhe prestar as suas homenagens e de levar bem fundo, pelas mulheres, pela luta e pelo combate, o seu lema : « há que gerir os poderes da memória ».
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