 O mundo dos cartoons de imprensa continua, em todo o mundo, altamente masculinizado. No World Press Cartoon deste ano (11 de Abril, Centro Olga Cadaval / Museu Berardo, Sintra) todos os premiados são do sexo masculino. No ano anterior, no mesmo Festival / Concurso, uma mulher portuguesa cartoonista obteve um Prémio, facto que não passou despercebido à então CIDM, actual CIG (Comissão para a Igualdade de Género).
Que razões poderão estar na base desta ausência feminina? Falta de mordacidade que toca o nihilismo – uma das características de grande parte dos cartoons – pouca tendência para desenhar o humor ou mesmo inexistência de um humor agressivo? Pouca atenção dada aos paradoxos e às contradições do Mundo? Predominância de outros caminhos políticos, tais como trabalho social no terreno? Preferência por outras formas artísticas? Uma concepção do tempo de criação longo, ao arrepio da imediatez da execução de um cartoon sobre um acontecimento fresco? O cartoon vencedor – a Torre de Bruxelas – pode ter sido desenhado em qualquer altura, o que contraria o argumento anterior, da necessidade de rapidez criativa. Recordo a Mafalda, do Quino: mordaz, interrogativa, combativa, atenta. Desenhada por mão masculina, traduziu durante décadas a imagem da mulher que quer ter um papel no mundo (e não um trapo de limpar os tachos), que se interroga e contesta. Uma abordagem capaz de contribuir para explicar a quase ausência de mulheres-artistas neste campo tem, forçosamente de passar pela análise organizacional das empresas de comunicação social. O que implica o estudo das relações de poder, nomeadamente entre géneros. |